Sepultamento de Quércia - Créditos da Imagem: Portal “G1″
Gosto muito dos grandes temas políticos.
Formas e sistemas de governo são, certamente, um expoente dessa temática.
A Morte de Orestes Quércia, EXXXXXXXXXX-Governador de São Paulo, me fez refletir sobre eles.
A Reflexão diz respeito, justamente, sobre o que é a República, ou, talvez, e melhor dizendo, que diabos de República é a “República Tupiniquim”, por alguns chamada de Federativa do Brasil.
Renato Janine Ribeiro diz, em reflexão “homônima”, haver, provavelmente, nos tempos modernos, pouquíssimas repúblicas dignas de ser tratadas como tais.
Ao acompanhar o cerimonial fúnebre do dito EX-Governador, pode-se perceber, facilmente, que Janine, de fato, tem razão.
Os homens passam pela vida pública e são, desde logo, transformados em Totens políticos. Espécies de “servidores” que, uma vez investidos de seus pomposos e “cíclicos” cargos políticos, assimilam de tal forma o poder, que passam pela vida pública sem permitir que a blindagem do poder se afastem deles, fazendo dela profissão, passatempo e, sobretudo, um lugar seguro, longe das amarras, privações e algemas (literalmente) do mundo comum.
Levam, AINDA, por toda vida (e até para além da vida, como se pode vêr no caso do finado EX-Governador), toda a pompa e circunstância da vida fácil dos gabinetes.

Morte de Quércia/Cerimônia Fúnebre com Oficiais Militares - Créditos da Imagem: Portal “G1″
Ouso me perguntar:
Qual Direito dá ao finado e ex-governador paulista Orestes Quércia, o direito de ser enterrado com status de Chefe de Estado? Igualmente, qual Direito dá às autoridades paulistanas a prerrogativa de enterrar um civil, cidadão comum, com honras de Chefe de Estado?
Pergunta de um troglodita insensível, um comunista subversivo, diriam alguns.
Mas a dor da morte, penso eu, não deve orientar e dessa forma distorcer nosso julgamento sobre o mundo.
A Tradição republicana, segundo informam os mais dígnos manuais, desde Aristóteles ate “Os Pensadores” do século XVIII, não conserva espaço para a “con-fusão” entre o público e o privado, tampouco para favoristismos “classistas” ou condecorações modistas, de ocasião; que visam atender mais à caprichos políticos que aos objetivos republicanos.
Numa República de verdade, os homens não se deitam como indigentes políticos e acordam como Imperadores, Príncipes e Potestades. Numa República de verdade, a comoção da morte não ressussita títulos ou direitos nobiliárquicos.
A Facilidade com que os toques de corneta “re-criam” as autoridades em “republiquetas” como a nossa, explicam a necessidade de se dar honra a pessoas que já passaram pelo poder e que hoje, na verdade, não deveriam ser mais que “simples” cidadãos, ocultos, incógnitos entre as leis e as maõs do Estado que governam a vida pública.
Entretanto, onde quer que a Republiqueta vá, lá estará o “osso”, e a necessidade de demonstrar que ele, o “osso”, pertence a elas, às potestades vivas ou re-criadas pelo ritual fúnebre. Estas cerimônias, a bem da verdade, servem ainda para sacralizar as castas de governos, indicando que, embora o princípio republicano seja o do sacrifício da individualidade em prol da Rés Pública, não se deve esquecer que o finado, aquele que parte, que vai embora, tinha ou teve consigo o “osso”, as benécies, os cargos, a blindagem e a “mão generosa” que lhe permitia criar, re-criar e distribuir, à revelia das leis, outras pompas e circunstâncias.
O “Osso” passa, em última instância, a ser o fundamento da “República”.
Afinal, diriam os mais ousados:
Quem é a morte para separar Poder e Potestades?
Frise-se, não tenho nada contra o Quércia, aliás, que Deus o tenha.
Na verdade, ele nada tem a ver com essa “episódica” falta de senso republicano que orienta seus contemporâneos.
Se resolveram enterrar o EX-Governador (agora simples cidadão) como se Governador fosse, se deram-lhe a pompa de “estadista” como se “estadista” fosse, resta-nos suplicar para que o Garí, o Médico, o Professor, o Policial e tantos outros do baixo clero (tambem simples cidadãos), sejam tratados com tanta “consideração” republicana.
Mas na verdade, sabemos que só os “grandes” “merecem” essa consideração. (A Relativização da regra, não me entra na cabeça.)
“Ossos” e republiquetas à parte, discutir a verdadeira Repúbica é assunto demasiado longo para ser tratado na minha atual impaciência de escrever. Certamente, vou receber dos esporádicos leitores o costumeiro repúdio por não ter tolerado (nem “na” morte) nossa eterna “farra do boi”.
Mas num país em que os meninos são educados pra jogar bola e as meninas pra “tirar a roupa”, isso não deve fazer diferença. Nem minha crítica, nem a eternização elitista do “osso”.